segunda-feira, 16 de julho de 2012

I - PRELÚDIO DO PÓS-FIM

... sou ruptura... continuidade... fragmentos... transcendental!
Lê e te encanta, ó leitor, filho de Deus e da mãe Terra!
Esta história marcada é de uma vida, não da tua, mas sim da minha vida criada pela morte. Faz-me recordar personagem de uma das obras de um amigo suicida meu, que diz: Amou, perdeu-se e morreu amando. Ficção essa li com prazer; fim ao adendo. A minha vida posso contá-la, contudo, não posso convidar-te a vivê-la. Por conseguinte, para um diálogo comigo, poderia eu inventá-lo, mas não o quero. Conversação, mesmo fazendo parte dela, é difícil sua reprodução. Nada melhor do que, sincronamente, eu e tu.
Aqui, neste momento, após desespero, loucura e agonia, mais do que a mim foi destinado ao nascer para o dies irae, jazendo ao solo, sepulcro o meu viver. Despojado de minha armadura não posso ser. O meu manto, minha capa de veludo, meu cobertor, minha pele, tem que me aquecer.
Perto do meu corpo encontra-se um amigo, um verdadeiro e fidedigno companheiro que me acompanha e protege há tempos, está a lamber-me a face e minha sinistra, é o meu cão, não um cão de raça, mas sem pedigree nem nada, é o meu doce preto Plutão. Ele não me deixou e, chegado a ele, somente os negros escravos, que a mim são caros e que a reciprocidade havia, aproximaram de meu invólucro mortal corpo e mais ninguém, pois as outras pessoas, que queriam meu bem, a meus bens sublimados se edificaram. E sendo pela religiosidade africana deles, conhecimento passado de geração a geração sobre o além, que, em alguns dias depois de minha morte matada, retornei ao plano concreto, no qual basta imaginar para que se exista, manifestando-me sobrenaturalmente. É de bastante atenção requerida por mim a ti sobre essa volta. Eu voltei, não ressuscitei, meu corpo apodrece na terra.
É... ninguém me chorou, salvo apenas por Plutão e pelos negros. Verdade, por estes foi-me obtido o galardão do choro, prêmio destinado a quem transcende a matéria que a princípio é sua.
Esta obra, minhas memórias, articulei-a no além (mas não conforme um contemporâneo meu que evitou contar o processo extraordinário empregado na composição de suas respectivas memórias trabalhadas lá no outro mundo, pois sua estória é ficcional). Entendas além como quiseres. Juntamente com a ajuda de alguns personagens, que fazem parte dela, transmigrei essas ideias sobre o tempo para cá, neste mundo, através de um grandioso mistério, munido de papel e pena, pudesse fazê-la ser escrita, inefavelmente, tentando expor minha cabeça cosmopolita. Agora, eu não sei se para ti é uma biografia ou autobiografia, pois sou o contador da história, porém, se não tenho mais corpo, como a faço surgir. Rio e imagino a expressão daqueles que destrinçam as obras, tolos! Leitor, entende como quiseres, pois aqui há a liberdade. Eu digo que a Terra é redonda como uma laranja e azul como um pequi e deves entender.
Meu leitor, não quero que te cegues para mim. Não deixes, assim, de me salvares e me conheceres, pois, como no princípio, sobre o qual dizem que só havia a palavra, hoje não possuo mais corpo para ser reconhecido. Somente há as minhas palavras representadas por meio de sinais, que unidas ajudam-me a contar um pouco da minha vida, de minha trajetória antes, durante e depois de ter ocupado um corpo, o meu corpo.
Tu, leitor, podes me dizer que não me reconheces, mas isto é óbvio, tão transparente e claro como a água que na mata sai das pedras. Somos de épocas e lugares diferentes... mas, se és um desenganado, iludido, inconformado e frustrado com a maioria de teus próximos (mesmo que externamente as pessoas não percebam), reconhecer-me-ás em ti, pois as ações não mudam, somente mudam de praticante, desde o princípio, desde a parola.
Deixa-me que a ti apresento-me, eu sou da família Costa, meu nome é João Paulo da Costa, um bacharel formado no velho mundo ao teu dispor.
A vida é tão curta, leitor, que agora mesmo, diante do meu gélido corpo que abandonei como disse, vejo passar todas as passagens de minha vida, rapidamente, que, se eu piscar os olhos... ela já terminou, passou, acabou. Tu não vês, leitor? Ou desejas cegar-te à minha história fechando este livro, seria mais um assassínio. Se me matas, sou o porquê deste papel de obra, deste mausoléu: A gente não é de um lugar enquanto não tem um morto enterrado lá. Além de perder meu corpo, perco meu espírito! Mas se não me mataste a mim também e continuas a comunicar-te comigo, ajudar-te-ei a ver todos os fragmentos que vejo, logo evoluirei. Vejo muito, até as passagens de antes do meu nascimento, coisas que sei, pois minha querida e reverenciada mãe me contou. Percebo que há uma grande confusão em minha explicação, não é fácil compreender, visto que, se, neste exato momento, acabo de abandonar o meu corpo, leitor, como a ti meu corpo não mais existe? Infelizmente não posso a ti esclarecer as fronteiras que não existem entre o aqui e o lá, ou o ontem e o agora. A nós, transcendentes, o tempo não existe, o que realmente existe é a vontade daquele que responsabilizamos por nossa eclosão, aliás, eu nem sei quem é, no entanto, não desejo divinizar o assunto.
Muitas das coisas que ocorreram em minha vida eu não tenho como trazer à memória, pois, se vires bem, nem tu és capaz de recordar de tua infância, quem dirá de mim que deixei, há muitos anos, esse plano no qual estás. Não possuo sangue nem sistema nervoso, porém, perceberás que tenho síncopes, isto é, minha consciência falha.
Enfim, amigo, presta atenção e vê se me reconheces ou conheces. São memórias de veludo. Então, psss... silêncio...


(Confissões descontínuas de uma mente confusa, 2013)