domingo, 2 de dezembro de 2012

CRÔNICA DO ENCONTRO COM O AMOR


AMANHÃ EU TEREI UM ENCONTRO. Há um mês voltamos a nos falar. Entretanto, não foi de forma presencial. Coisa da atualidade. Internet. Bate-papo virtual! Poxa, como a conversa por escrito foi boa. Fiquei radiante. Marcamos;  o dia é amanhã. Exposição de arte e de antiguidades. Almoço e chopes, beijos etc... e o futuro. E tudo isso num momento oportuno. Estou na rua e em condicional faz um mês e pouco. Não soube dela nem ela de mim durante esse tempo. Me envolvi numa encrenca da qual não fui culpado. Todavia, tive de assumir a responsabilidade daquilo que julgava errado. Assumi a culpa, dei minha palavra. Assim peguei uns anos preso. Xilindró. Tenho as marcas vivas ainda no corpo e na memória que nem seleciono. O pior é que sequer tive como explicar-lhe o ocorrido, enfim, a vida... Antes de minha reclusão imposta, envolvemo-nos intelectual e afetivamente. Mas nunca houve contato físico... sequer um beijo. À verdade, todo envolvimento foi muito subliminar... em insinuações, em disse-mas-não-disse, toda uma alegoria amorosa tomou-nos almas e mentes. Relacionamento sublime. Puro. Lindo. Elevado. Idealizamos um namoro magnífico. Somente os amigos cantores Neguinho da MPB e Mc Porquinho do Funk sabiam. “Começaria tudo outra vez... a chama em meu peito ainda queima... nada foi em vão”. Porém, fui enclausurado e não nos falamos mais... aliás, ela não me respondeu mais emails e cartas que enviava do xadrez. Triste, mas resignado. Vida que segue. Foi o fim.

HOJE EU TENHO UM ENCONTRO. Há dois anos não a vejo. Como estou ansioso! Mas estou atrasado. Sapato rasgado? Ué?! Como assim? É novo, imaculado! Tenho há um mês e pouco. Como me dissesse: “Já tô cansado de embelezar e sustentar seu corpo. Não comungo mais de seus caminhos”. Loucura de pré-encontro e de quem está atrasado e nervoso. Pareço ir de catamarã em plena Linha Vermelha. Chegado à Praça XV, olho a imponência de Dom João VI no centro da praça contrapondo-o à imagem receptiva do Almirante Negro, localizado à periferia da mesma (tão à margem que poderia cair na margem das águas se o Cândido tivesse vertigem)... esse outro João que há poucos dias estava numa base com a parte de trás sem nada, aparecendo os tijolos e toda suja de fezes. Um João montado a cavalo segurando uma insígnia da igreja, outro João a pé de braço direito levantado e esquerdo com um timão. Um João branco no centro, outro João negro à margem. Na feira, vi máscaras africanas, grilhões e, juro, um cinto de castidade! Sinto castidade? Nenhuma pureza, só cinismo e devassidão. Acerca dos apetrechos do tempo da escravidão, não entendo por que se encontravam à venda, mas tudo bem. Torpedo no celular: “Cheguei”. Abraço apertado, demorado e saudoso de carinho que não conhecemos, e que esperávamos. Pública reciprocidade na afável interlocução. Estamos radiantes. A conversa é deliciosa. As risadas são sinceras, gostosas e soltas no excesso. CCBB. A exposição de arte é simplesmente magnífica. O Impressionismo, com sua busca pelo verossímil nas obras de Renoir e Monet, preenche um vazio que nunca sei que possuo. O Expressionismo, com o glamour do colorido de Van Gogh, preenche o possuo que é um vazio. Táxi! Lapa. O passeio pelas antiguidades na rua do lavradio foi imbatível. Almoço. Restaurante Antonio’s. Entrada: duas empadas, uma de bacalhau e outra de carne-seca; principal: salmão grelhado ao molho de camarão com arroz de brócolis. Tudo romântico... até que o ideal vira o real. Ela: “Uma pergunta: por que não disse pra mim que seria preso?” “Concorda que tudo foi pior para mim?” “Por acaso algum dia você se importou...” “Você foi. Eu fiquei”. Mais e mais e mais. Um turbilhão. Ouço coisas do gênero lorenzetti ducha fria: “tenho ficante-quase-namorado, estou em outra fase, sou outra, sofri muito, perdi a esperança de encontrar a felicidade no outro, estou mais sóbria sobre meus sentimentos”, resumindo, você “foi um rio que passou em minha vida”... PQP! Que decepção! Eu todo empolgado com o samba de malandro que soava... feliz acerca de um upgrade que daria na minha vida com nosso possível relacionamento. “Meu mundo caiu”. “Fato consumado”. “E me calo com a boca de feijão”, ops, de salmão. Explico o medo que tive à época. Arrependo-me das escolhas do passado. Assumo a responsabilidade das consequências. Conversa séria e franca. Canto sangrando: “Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda... É apenas o meu jeito de viver o que é amar”. A realidade é que o sonho acabou e o amor também, aliás, não acaba o inexistente. Ruptura. É dura, consistente e irredutível. Calada, esperou durante esses anos para no dia de hoje finalizar a quimera que vivemos. Não se segue adiante sinceramente se as pendências do passado não são sepultadas. Uma vez eu fiz um poema sobre isso: o luto deve ser vivido. Vamos embora. Estou decepcionado e triste. Autoestima zerada. Mas resignado. Vida que segue. É o fim.

ONTEM EU TIVE UM ENCONTRO. E estou feliz. Nada aconteceu como eu imaginava, ou melhor... idealizava. Pensava que pudesse ser a chance da reabilitação. Não foi. O tempo passa. Nada melhor do que um dia após o outro. As escolhas tornam as consequências implacáveis. Mas tirei um grande aprendizado. Foi um insight. Pela primeira vez reflito sobre a existência das consenquências. “Meu tempo é hoje”, meu tempo é o agora. Uísque e Paulinho: "Eu deixo em aberto / meu saldo de sentimentos / sabendo que só o tempo / ensina a gente a viver". Só existem as escolhas. Descobri que posso assumir um compromisso comigo mesmo. Eu ainda a amo pelo simples fato de minha vida ser um carnaval. Seja minha Portela, aliás, minha Beija-Flor... "minha escola, minha vida, meu amor". A felicidade no samba é minha sina. Viva o samba! Eu ainda a amo porque ela é o espelho que idealizei minha versão feminina. Eu ainda a amo porque sou eu o objeto de meu amor. Ela foi o espelho que refletiu minha imagem. A vida ensinou-me em sua oficina a dominar a arte de reinventar e de resistir. Perseverança. Aprendi a gostar de gostar de amar e de me apaixonar. Áries alimenta-me de paixão. “Meu coração tem manias de amor”. Mas “amor não é fácil de achar”. Reconheço minhas escolhas e as assumo. Não tenho raiva nem ressentimento. Estou maduro. Se eu amar-me por nós, o rio não secará. O meu rio, rio de tudo. Sou feliz. Meu amor por ela é pelo que de mim nela deposito. Eu a amo porque me amo e não preciso que ela saiba disso. Não estou resignado. A estrela Gonzaguinha, que fica na constelação plêiade à esquerda, brilha em alerta: “o caso de vocês é uma porta entreaberta: há um lado carente dizendo que sim e a vida gritando que não”. Pessoa, na pessoa de Bernardo Soares, meu guru, meu filósofo, meu psicólogo, aconselha-me: desassossegue-se! Estou vivo. É a autossuficiência do amor. Vida que segue. Será o fim (rs)?