Terça-feira. Olho o celular. São 3h54. Ainda falta
meia hora para o alarme despertar e eu me levantar da cama. Às 5h05, pronto,
parto de casa. Então, volto a sonhar. Sonho que, antes de viajar, uma senhora,
ao portão de sua casa, me diz que preparará, para o almoço, uma apetitosa
feijoada. Lamenta minha ausência, pois não poderei provar, naquele momento, sua
iguaria. Porém, promete guardar um pouco para mim quando eu retornar, à noite. Desperto.
E esse relógio-celular não desperta? 5h02! Salto da cama. Atrasado. O relógio
do celular não acordou. Apronto-me de forma descompassada e ligeira. Como
viajarei após o almoço, levo a mala e a pasta de trabalho para o carro.
Estresse previsto: engarrafamento. Cadê a chave do carro? Ponho a mala e a
pasta no chão. Celular no bolso da calça. Volto para casa. Os cachorros se
esgoelam, como se vissem um intruso! As chaves, onde as botei? Sumiram. Cinco
minutos depois... achei. Volto para o carro. Ponho na mala a mala. Destino:
Botafogo. Saindo às 5h05, comumente chego ao trabalho por volta das 6h20. O
ofício começa às 7h. Hoje, atraso considerável! E, quem sabe, não aceitável. O
trabalho é tenso. Direção que prima pela excelência. Clientes exigentes. Já na
estrada — engarrafamento —, antes é preciso abastecer o veículo:
— Álcool ou gasolina?
— Gasolina. Completa.
— Ok, patrão.
A única certeza era o estresse provocado pelo
engarrafamento, que insistia em ocupar minha mente. Agora, porém, o horizonte
já clareava, como se todos se encaminhassem para o nascer do sol.
— Família, deu tantos reais.
— Só um instante... Ué, onde está minha pasta? Não
está aqui dentro... Então devo ter colocado na mala... Doideira. Calma, acho
que deixei na mala... Vou abri-la...
Não.
Para meu desespero, havia esquecido a pasta de
trabalho, onde guardava minha carteira. O suor do rosto, antes provocado pelo
calor, agora era frio. Depois de alguns instantes de afonia diante da
constatação e da vergonha, balbuciei:
— Esqueci a carteira.
— Meu amigo, eu esqueci a minha carteira
em casa. Saí atrasado. Esqueci. Pelo amor de Deus, eu não sei o que fazer. Você
não sabe...
— Tu tá de sacanagem, né? Não sou amigo de
ninguém. Você vai ter que pagar essa gasolina.
— Mas...
— Eu não vou pagar essa porra. Porra, uma
hora dessas e neguinho quer me fu...? Eu, aqui, trabalhador, na madruga, e você
vem me zoar com a minha cara? Eu tenho filho pequeno para dar de comer. Não
estou na sacanagem, não.
— Por favor, eu esqueci...
— Vai sair com o carro, não. Me dá essa
chave. Vou pagar porra nenhuma.
— Meu irmão, por favor, acredita em mim.
Eu saí de casa atrasado e esqueci minha carteira. Desculpa, por favor. Eu não
quero te sacanear, não estou desrespeitando, não quero tirar proveito. Não sei
mesmo o que fazer. O gerente tá aí?
— Meu irmão, nada. Fulano, vem aqui. Tô
com um problemão aqui.
O tempo vai passando. Estresse agravando.
Constrangimento aumentando. Outros clientes:
— Paga essa porra logo, caloteiro safado!
Tá esculachando trabalhador!
Eu, choro contido: vergonha. O frentista,
choro embargado: desrespeito. Bem × Mal? Mal × Bem? Não. Bem × Bem. Quem deve
vencer? A tragédia? Pelas duas vias, a credibilidade humana posta em xeque...
cheque sem fundo. Tentei pensar no trabalho. Não consegui. Minha cabeça tinha
sido decepada. Constrangimento generalizado. Tempo depois...
— Meu amigo, eu juro que volto e pago.
Falo a verdade. Dou minha palavra. Quer ficar com meu relógio, como garantia?
Fica com meu relógio!
— Não, vai lá... o gerente num te liberou?
— Não posso deixar o celular porque
preciso avisar sobre meu atraso.
— Não, tá maneiro. Se adianta aí. Já tô
ferrado mesmo. Vou ter que pagar essa merda mesmo. Devo ter cara de otário para
isso sempre acontecer comigo. Da próxima vez, vem de pistola que eu fico
quietinho, mas na mão grande não...
Saí logo, para não ouvir mais lamúrias e
praguejamentos. Sem carteira, sem lenço, sem documento e consternado pelo que
havia causado ao rapaz. Para fugir do engarrafamento, tive de pegar uma saída
estratégica, porém “perigosa”. Adentrei uma comunidade onde o policiamento ou o
tráfico poderiam me achar “suspeito”. Se me parassem para averiguação, no
estilo Bezerra da Silva, nem babilaque eu tinha na mão. Aí, o bicho ia pegar
mesmo. Todavia... segui em frente, com uma mão no coração, onde estava meu
ilequé, e a outra no teçubá, que estava no retrovisor. Putz! E o volante? Aliás,
as duas no volante, como se eu decidisse, com firmeza, a segurança do meu
destino. Enfim, cheguei à Pavuna e consegui me encaminhar pela senda de retorno
para casa. Parei, desci, entrei, peguei a pasta e arranquei para o posto. Por
quase duas vezes, bati no carro da frente. Nervosismo. Estacionei o carro no
fatídico posto de gasolina, mas, a olhos turvos, não avistei terra firme — ou
melhor, o frentista pseudoludibriado. Reconheci apenas o tal Fulano, verdade
daquele momento, e pedi que passasse rapidamente o cartão de débito. Mil
desculpas! Agradecimentos mútuos.
Agora, o jeito é voltar para a Pavuna:
melhor opção para o caos do trânsito carioca! Novamente, o caminho tortuoso,
mas com os documentos na mão e alguma farpela para um possível “pedágio”! Dessa
vez, eu não dava brecha para a razão; se me fizessem mal na “dura”, seria por
coração.
Metrô: Pavuna → Botafogo. Fila para
passagem: quilométrica, mas ágil. Metrô, como diria Oswald de Andrade: também
um transatlântico de pernas mescladas. Era pouco chão para muitos pés.
Lembro-me de que, antigamente, soltávamos
em Engenheiro Rubens Paiva para voltarmos para a Pavuna. Estratagema: ir
sentado para o Centro. Agora, para conquistar o tão almejado “conforto”, é
preciso fazer baldeação duas estações à frente. Adentrar o metrô também não é
uma simples missão. Nesse formigueiro, entram e saem formigas operárias a todo
instante. Aliás, mais entram do que saem. Por isso, sair também se torna uma
tarefa árdua. Da última vez que deveria ter soltado na estação de São
Cristóvão, meu corpo estava de tal forma obstruído e atrelado a outros corpos —
como se fizéssemos parte de um mesmo corpo — que fui “parido” apenas na
Uruguaiana.
Ligam-me do trabalho. O canal de
comunicação não funciona bem. A tensão aumenta. Enfim, cheguei à estação de
Botafogo, última parada do metrô, pois ocorreu uma pane. Ainda bem para mim;
ruim para os outros. Após dez minutos de suada “caminhada”, chego ao
sacrossanto espaço de labuta! Tensão aumentada. Gastrite no refluxo, quase
espuma no canto da boca.
Quando o dia começa assim, cavernoso,
temos a sensação de que nada dará certo. E este meu dia tenebroso nasceu
prematuro. A essa hora, os abutres já devoram as entranhas de Prometeu. Sísifo
já empurra sua pedra montanha acima. Depois, a regeneração do estômago e a
pedra rolando montanha abaixo. Amanhã, a condenação recomeça. Isso só porque se
cometeu um erro cabal aos olhos dos julgadores? E quem olha por nós, os sempre
julgados? O medo é deixar o “patrão” saber que ele não precisa de você, pois já
há outro candidato — submisso às circunstâncias da vida — na sala de espera,
aguardando a entrevista, a oportunidade para “assobiar e chupar cana”, embora
sequer haja vaga, por enquanto. Outras vezes, um “colega” sabota o caminho de
um “rival”, jogando uma casca de banana aqui, pondo um pouco de óleo ali... Para
alguns, reféns da infelicidade, a felicidade trazida pelo dinheiro pode ser
garantida pelos desvios de conduta.
Esbaforido e suado, adentro o local de
trabalho. Espero um sorriso amarelo, rancoroso, desconfiado, debochado ou
desaprovador dos meus superiores... Contrariando minhas expectativas, sou
recepcionado com carinho, preocupação... e, principalmente, bom humor.
— Água? Cafezinho? Sofá! Ar-condicionado!
Uma massagista? Para a sala de trabalho só depois de estar refeito do susto.
Digo para mim mesmo: não entendi o enredo
desse samba, amor. Sim, refiz-me feliz com a paciência com que fui acolhido e
adentrei a sala de trabalho.
A forma como, inesperadamente, fui
tratado, quando finalmente tive espaço para respirar e pensar, me recordou um
filme da infância que havia revisto recentemente: As sete faces do Doutor
Lao. Doutor Lao é um velho chinês de mais ou menos 7.322 anos de idade.
Chega a uma cidade dominada por valores distorcidos com seu miraculoso circo.
Em seu circo, quase de horrores, desfilam seres (semi)mitológicos que espelham
o caráter e os sentimentos de muitos dos cidadãos do lugar. Os seres circenses
de Lao refletem, surpreendentemente, os deuses e demônios que habitam nosso
interior, como se fôssemos um pequeno peixe capaz de abrigar várias
individualidades. Fora do aquário, seu habitat adaptável, o peixinho mascote do
Doutor Lao transforma-se em um dragão de sete cabeças, sem deixar de ser,
intrinsecamente, o mesmo ser. O estranho é que os monstros e anjos que habitam
nosso interior parecem desejar nos devorar, para que todos se libertem ao mesmo
tempo. Lembro-me das sábias palavras do velho Doutor Lao: “o mundo todo é um
circo”. Quando olhamos para um punhado de areia e enxergamos além de sua
condição material, lá está o circo de Lao. A magia dessa visão é a tônica das
surpresas cotidianas. Nesse truísmo, precisamos respirar o encanto da vida.
Todos os dias, embora existam más
condutas, os seres humanos ainda cultivam valores que o dinheiro não compra. Na
nossa epopeia, à qual somos destinados — ou condenados — todos os dias, nós,
seres absurdamente normais, temos de estrangular um leão de Nemeia por dia. E
olha que esse é apenas o primeiro dos doze trabalhos hercúleos diários. Bela, a
epopeia. Bela quando nos recorda a imperfeição habitual de nossa condição
humana: superar, epicamente, os obstáculos mais prosaicos. Nem sempre é possível
conservar a inocente percepção de que somos “inteiramente” felizes ou
realizados todos os dias, em todos os turnos. Contudo, podemos escolher viver
bem com o que tivermos às mãos. Após uma manhã desarmônica, mas inesperadamente
contornada pela beleza de ser humano, saio feliz para o almoço. Boa pedida, boa
companhia, boa digestão: “Refeitório Orgânico”, em Botafogo.
O que leva à escrita não é a ação da
estória lancinante entre o bem e o bem, na qual cada um defende a verdade de
seu ponto de vista. É a compreensão humanitária que subjugue as conveniências
do dinheiro e permita perceber a “verdade” do outro. Cada um com sua linguagem,
cada um com seu humor e ironia, cada um sonhando, em esperança, uma boa ação
alheia. É... porém, penso ser melhor comprar um despertador de pilha. Que eu
não me atrase semana que vem! Senão... sofrerei com a fúria dos Titãs. Nesse
caso, esquecer ou não a carteira dará no mesmo. Entretanto, calote no
frentista, ah, isso não.
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